
Por Audrey Kajiwara.
O Sertão de Sidarta e a iluminação
de Riobaldo
Ler o Grande Sertão: Veredas, de
Guimarães Rosa é, sobretudo, adentrar-se na complexidade do ser num complexo
labirinto tal qual a alma do ser humano. Uma experiência de autoconhecimento,
para o mais “alto” conhecimento, pressupõe-se um fino estudo a que se pode
dedicar com um olhar investigador, com conclusões questionáveis ao longo da
eternidade. Ora, não é à toa que o símbolo do livro é o infinito, como num
ciclo sem fim, aonde tudo termina é o mesmo ponto aonde tudo (re) começa.
Segundo Galvão (2000, p. 28) toda
obra de Guimarães Rosa começa e termina no sertão, sendo esse seu universo, seu
horizonte, seu ponto de partida e de chegada. Trata-se, portanto, nesse livro,
do sertão de Minas Gerais, com pastagens
boas para gado, abundância de água e entre tantos os rios que o cortam, com
seus afluentes, o principal é o São Francisco (GALVÃO, 2000, p. 29).
No entanto, cabe fazer um breve
recorte quanto à presença do elemento “rio” no Grande Sertão: Veredas (GSV),
sobretudo o Rio São Francisco, onde,
ainda menino, a vida de Riobaldo é marcada ao conhecer Diadorim e Urucuia, onde
Riobaldo se despede ao ir para a guerra contra os Judas. Propõe-se, então, uma
relação com o romance Sidarta, de Hermann Hesse, uma vez que essa obra tem o
rio com forte simbologia também nessa obra. Pretende-se ainda, elencar outros
elementos de suma importância aos quais complementarão o referido intertexto.
De modo a pautar esta análise em
conceitos mais consistentes, os significados para “água” e “rio” aqui propostos
estão baseados no Dicionário de Símbolos, doravante DS, de Herder Lexikon, aos
quais são introdutórios no presente trabalho.
Desde os tempos mais remotos, a água
tem fundamental importância para a sobrevivência humana como o mais importante recurso natural
de consumo comum aos seres vivos, bem como no sentido do desenvolvimento da
agricultura e da economia. Ligada às mais diversificadas culturas, vem
carregada de profundos significados, muitos deles ligados à criação do universo
e, ainda, valores religiosos, como ao batismo e à cura.
Símbolo
com um horizonte complexo de significados, com massa informe e indiferenciada
simboliza a infinitude de possibilidades
ou os primórdios de todo o devir, a matéria prima. Nesse sentido aparece em
inúmeros mitos da criação (...). A água simboliza também a força da
regenerescência e purificação física, psíquica e espiritual, tanto no
islamismo, no hinduísmo e no budismo como no cristianismo. (...) Na China, a
água está subordinada ao princípio yin e em outras culturas também está quase
sempre ligada ao feminino, à profundeza escura e à lua, à fertilidade e à vida
e à vida espiritual (DS, p. 13).
Conforme
o DS (p. 172), diretamente ligado à água, o Rio, em função da sua importância
para a fertilidade, costumava a ser venerado como divindade pelos Gregos e
Romanos. A fluidez faz dele símbolo do tempo e da transitoriedade, mas também
da constante renovação. A confluência de todos os rios para o mar simboliza a
união da individualidade e do absoluto:
por exemplo, no budismo e no hinduísmo, na qualidade de símbolo na inserção do
nirvana.
A busca por si, de tão desafiadora,
pode deixar muitas marcas. Prova disso, é que Hermann Hesse é considerado o
autor alemão com mais traços autobiográficos, sendo duas as temáticas que mais
perpassem seus escritos: crise existencial e a busca ou desenvolvimento
espiritual; e Sidarta foi concluído e publicado em 1922, após um período de
depressão em que foi atendido por C. G. Jung.
Assim
todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias. Para todos, era fonte de
prazer.
Mas
a si mesmo Sidarta não se dava alegria. Enquanto passeava pelas sendas rosadas
do figueiredo, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da
contemplação, enquanto abluía o corpo no cotidiano banho expiatório, ou fazia
sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos
de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não
sentia, não sentia, ainda assim, nenhuma
satisfação em sua própria alma. (HESSE, 2003, p. 10)
(Sidarta) “É fruto de uma viagem à Índia, que
colocou o autor em contato com a cultura oriental. A história é narrada pelo
próprio Buda, contando sobre a busca pela plenitude espiritual.” (LASCH apud
pereira, 2012).
Sidarta, filho de brâmane, casta a
qual pertenciam sacerdotes, filósofos e religiosos e, segundo os hindus
acreditavam ter nascido da boca do deus Brahma, demonstrando o alto da pirâmide
nas castas. Juntamente com seu fiel amigo Govinda, abandonou tudo para seguir
os samanas, para esvaziar-se de tudo, aprendeu a jejuar, mas posteriormente
entende que suas práticas nada mais eram que maneiras de fugir de si mesmo.
Resolvem seguir novamente até que ouvem falar do iluminado Gotama, o Buda, e vão ao seu encontro. Govinda decide seguir
Buda após ouvir o Dharma, seguindo a doutrina e deixando Sidarta. Para ele, não
que essa não fosse a mais absoluta verdade, mas ele acreditava que era preciso
aprender pela experiência e não pelo conhecimento.
Caminhando
cada vez mais devagar, absorvido pelos pensamentos, Sidarta perguntou-se a si
mesmo: "Mas que desejaste aprender dos teus mestres e extrair dos seus
preceitos? Que será aquilo que eles, que tanto te ensinaram, não conseguiram
propiciar-te?" E ele encontrou a resposta: "Era meu desejo conhecer o
sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para superá-lo: Porém não
pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me
às suas vistas. Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu,
esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e
isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que
sei quanto a mim, Sidarta!" Como que agarrado a esse raciocínio, o moço interrompeu
a lenta caminhada e de um pensamento nasceu outro, diferente: "O fato de
eu não saber nada a meu próprio respeito, o fato de Sidarta ter permanecido
para mim um ser estranho, desconhecido, tem sua explicação numa única causa:
tive medo de mim; fugi de mim mesmo! Procurei o Átman, procurei o Brama, sempre
disposto a fraturar e a pelar o meu 'eu', a fim de encontrar no seu âmago
ignoto, o núcleo de todas as cascas, o Átman, a vida, o elemento divino, o
Último. Mas, enquanto fazia isso, perdi-me a mim mesmo." (HESSE, 2003, p.
36-37)
Buhler (2006, p. 60), em menção ao conto
“A terceira Margem do Rio”, coloca que o pai incorpora a ambivalência do drama
essencial entre o si mesmo e o mundo, os quais são correlatos à primeira e à
segunda margem do rio, ideia da qual pode-se compreender a essência humana.
A partir do momento que Sidarta
segue sozinho, passa a ver o mundo de outra forma, tudo parece mais bonito e
lhe chamar a atenção. A esta altura, pode-se pressupor que a transposição do
rio pela primeira vez, marca uma
passagem iniciática na vida dele, muito presente também nas obras Rosianas.
À
noite, enquanto dormia na choupana de palha de um balseiro, junto à ribeira,
Sidarta teve uma visão: aparecia-lhe Govinda, vestindo os trajes amarelos dos
ascetas. Seu rosto parecia abatido e em voz triste disse ele: "Por que me
abandonaste? " E Sidarta abraçou o amigo. Mas, enquanto o enlaçava nos
braços e o estreitava ao peito, já não era Govinda a quem cingia, senão uma
mulher, de cujo vestido saia um seio opulento. Sidarta encostou a boca nesse
seio e bebeu. O sabor do leite era doce e forte. Sabia a macho e fêmea, a sol e
mato, a animal e flor, a todas as frutas, a todos os prazeres. Embriagava e
provocava tonturas. Quando Sidarta acordou, cintilavam as águas do rio,
lançando um clarão lívido pela porta da choupana. Da selva ressoava, profundo e
distinto, o grave chamado de uma coruja. Logo que raiou o dia, Sidarta pediu a
seu anfitrião que o conduzisse ao outro lado. Na jangada de bambu, o bolseiro
transportou-o através do vasto rio, cuja água resplandecia rosada à luz da
aurora.
-
Que lindo rio! - disse Sidarta ao companheiro.
-
Pois é - respondeu o balseiro. - É muito lindo. Prefiro esse rio a todo o resto
do mundo. Muitas vezes escutei o seu murmúrio, muitas vezes observei o seu
olhar e nunca deixei de aprender dele. Um rio pode ensinar-nos tanta coisa.
-
Agradeço-te, ó meu benfeitor - disse Sidarta, ao desembarcar. - Não te posso
dar nenhum presente, para retribuir a tua hospitalidade. Não tenho com que te pagar,
meu caro. Sou um homem sem lar. Sou filho de brâmane e samana.
-
Eu sabia disso - replicou o bolseiro - e não esperei da tua parte nenhuma
recompensa, nenhum presente. Em outra ocasião me darás algum mimo.
-
Achas mesmo? - perguntou Sidarta jovialmente.
-
Tenho certeza. Também isso aprendi do rio: tudo volta. Tu também voltarás, ó
samana. Passa bem! Que tua amizade seja meu salário. Lembra-te de mim, quando
ofereceres um sacrifício aos deuses.
Separaram-se
comum sorriso. Risonho, Sidarta aprazia-se com a gentileza e a amabilidade do
balseiro. "Ele se parece com Govinda" - pensou, sorrindo. -
"Tais pessoas ficam gratas, apesar de poderem, elas mesmas, reivindicar
gratidão. Todas elas são submissas, querem ser amigas, gostam de obedecer, não
gostam de pensar muito. Esses homens são verdadeiras crianças." (HESSE,
2003, p. 45-46)
Sidarta
se sente vivo, conhece Kamala – uma prostituta, com quem passa a relacionar-se
e começa ter vivências tão (humanas) mundanas, como trabalhar, lidar com o
dinheiro, jogar, comer demasiadamente,
até quase não ouvir mais sua voz interior. Isso o fez sofrer.
De
acordo com Hesse (2003, p. 75), agarrando-se ao tronco, cravou os olhos nas
verdes águas e almejava de todo coração desprender-se, afogar-se naquele rio,
em cuja superfície se espelhava um vazio tremendo, qual reflexo do pavoroso
vazio de sua própria alma.
Nesse
momento, um som começou a vibrar nele, vindo de longínquas regiões da sua alma,
de épocas passadas da sua existência gasta. Era uma única palavra, uma só sílaba
que ele pronunciou inconscientemente, em voz insegura. Era a velhíssima palavra
inicial e final de todas as orações do bramanismo, o sagrado Om, que significa
o Perfeito ou a Perfeição. E logo que ouviu o Om a ressoar no seu íntimo, seu
espírito, bruscamente acordado do sono, percebeu a estupidez do ato que ele ia
cometer. Estremeceu. (HESSE, 2003, p. 75)
Sidarta
sente que ali deve ficar, com o balseiro que outrora o transportou, junto ao
rio, para uma nova vida que por sua vez
já ficou velha e morreu. (HESSE, 2003, p. 85).
Mas,
pelo fim da narrativa de Sidarta, quando este descrevia a árvore na ribeira, a
queda profunda e o efeito do sagrado Om, quando contava como, ao acordar do
sono, sentira aquele caloroso apego ao rio, o balseiro ouviu-o com dupla
atenção, conservando os olhos fechados e abandonando-se inteiramente às
palavras de seu hóspede (HESSE, 2003, p. 88). (...) - Hás de aprender isso -
replicou Vasudeva - porém não de mim. Quem me ensinou a escutar foi o rio e ele
será o teu mestre também. O rio sabe tudo e tudo podemos aprender dele. Olha,
há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se,
procurar as profundezas. O rico e nobre Sidarta converte-se num remador; o
erudito brâmane Sidarta torna-se balseiro. Também isso te sugeriu o rio. O
resto, ele te ensinará ainda (HESSE, 2003, p. 89.
O
tempo é um elemento intrinsecamente relacionado rio presente, nos dois
romances, no que tange à temporalidade.
Pressupõe-se que o rio representa a consciência, um estado a que Sidarta fora
adquirindo ao longo da vida, após vivenciado algumas experiências mas tenha
compreendido na velhice, por conseguir, por fim, ouvir “a voz” do rio. E quando
ele ouve o Om, cessa seu sofrimento e
assim como seu mestre, o barqueiro, ensina e aprende com o rio.
Sidarta
certo dia pergunta para Vasudeva: “o rio também te comunicou o misterioso fato
de que o tempo não existe?” Vasudeva
traduz a metáfora: o rio se encontra ao mesmo tempo em toda a parte, tanto na
fonte como na foz. Sidarta incorporando em sua vida essa ‘iluminação’,
compreende que o “menino Sidarta não estava separado do homem Sidarta e do
ancião Sidarta, a não ser por sombras, porém, nunca por realidades”. O conceito
vulgar de tempo é abandonado. Sidarta deixa de lado o que seria a “‘representação’
teórica de um fluxo contínuo de agoras”. “Nada foi, nada será; tudo é, tudo tem
existência e [é] presente”. Ele percebe que todo o sofrimento pertence ao
tempo, e que é preciso derrotá-lo pelo pensamento. A água que Vasudeva e
Sidarta escutam “não era apenas água, senão a voz da vida, a voz do que é, a
voz do eterno Devir” (FRANKEL, 2015, p. 212).
Em o GSV, segundo Ronái (2001, p.
17). o narrador parece experimentar
vários rumos, embrenha-se numa atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto
inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se
num labirinto de episódios desconexos.
(...) de repente, após uma travessia do rio São Francisco, ele nos faz
desembocar numa estrada real, de horizonte dilatado, por onde a história se
desenrola ampla, épica, irresistível, levando de roldão qualquer estranheza ou
resistência.
No primeiro encontro entre Riobaldo
e Diadorim, ainda na adolescência, Riobaldo estava realizando sua passagem
iniciática, como se “a seu esmo” fosse um ir de encontro com seu próprio eu,
sendo conduzido por Dizorim, para uma nova vida – a de jagunço. Neste sentido,
pode-se fazer uma analogia a um mergulho em si mesmo. “Resolvi ter brio. Só era
bom por estar perto do menino. Nem em minha mãe eu não pensava. Eu estava indo
a meu esmo.” (GSV, 1994, p. 143).
Riobaldo recebera do Menino uma
lição de coragem quando da travessia do São Francisco numa canoa (GALVÃO, 2000,
p. 48):
Quieto,
composto, confronte, o menino me via. – “Carece de ter coragem...” – ele me
disse. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – “Eu não sei
nadar...” O menino sorriu bonito. Afiançou: – “Eu também não sei.” Sereno,
sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz. – “Que é que a gente
sente, quando se tem medo?” – ele indagou, mas não estava remoqueando; não pude
ter raiva. – “Você nunca teve medo?” – foi o que me veio, de dizer. Ele
respondeu: – “Costumo não...” – e, passado o tempo dum meu suspiro: – “Meu pai
disse que não se deve de ter...” Ao que meio pasmei. Ainda ele terminou: – “...
Meu pai é o homem mais valente deste mundo.” (GSV, 1994, p. 146).
Para
Marinho (2013, p. 87), o rio apresenta a possível divisão entre o bem
e o mal, sendo o lado direito o bem e o lado esquerdo, o mal. O lado direito, de Diadorim, do chefe dos jagunços
Joca Ramiro, personifica a vida. A margem direita representa o amor, a alegria,
o sossego, a tranquilidade, a amizade, a justiça e todos os sentimentos bons,
sob o comando de Deus. Na margem esquerda estão os sentimentos ruins como o
ódio, a tristeza, a injustiça. O lado esquerdo, do inimigo Hermógenes, da
vingança, das veredas - mortas, personificam a morte e é a margem comandada
pelo demônio.
O espaço do movimento das águas dos
rios. Ou do Rio, se quisermos desde já relacioná-lo ao rio São Francisco, o
“Rio Capital” que, se de um lado separou a vida do herói em duas partes, de
outro separa dois mundos: o da “ordem”, a partir da sua margem direita, ou ao
Sul/Leste, e o do “caos” a partir da margem esquerda ou ao Norte/Oeste.
Riobaldo é colocado como mediador, como integrador de dois mundos, uma espécie
de terceira via, ou a própria forma da expressão, uma forma retórica. (JUNIOR,
2013, p. 62)
Agora, por aqui, o senhor já viu:
Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum
ribeirão. (GSV, 1994, p. 96).
O narrador descreve as belezas do “De
Janeiro”, como as águas claras, as flores e os animais, e ao fundir-se com o
grande São Francisco, apontando o tamanho do rio, que o assusta, no outro lado, as beiras sem praias, tristes, com tudo
parecendo meio podre, a “lameada da cheia derradeira”, o medo da canoa virar. E
Riobaldo, ao atravessar o rio São
Francisco realiza sua passagem iniciática,
perdendo o medo.
Neste
encontro, entre Riobaldo e, o então menino Diadorim, também é possível observar
aspectos femininos e masculinos como o fato de Riobaldo ter sido criado pela
mãe e Diadorim estar travestido de homem e ser criado pelo tio, bem como
elementos à beira do rio, tais como as a árvores, gameleiras e Pau d’óleo. E
durante toda a travessia de Riobaldo pelo sertão estão presentes
questionamentos, inquietações e dúvidas sobre a real existência de Deus e do
Diabo, mostrando a dualidade e a
polaridade da vida: o bem e o mal, o feminino e o masculino.
Para Bosi, o conflito entre eu/ herói e o mundo (que nos
tem valido de fio de Ariadne no labirinto da ficção moderna) não desaparece no
grande romance de Guimarães Rosa: resolve-se mediante o pacto do homem com a
própria origem das tensões: o outro, o avesso, “os crespos do homem”. (...)
Nesse todo positivo interpenetram-se o sensível e o espiritual de tal sorte que
o último acaba parecendo uma intenção oculta da matéria (“Tem diabo nenhum, nem
espírito”), que se manifesta nos modos pré-lógicos da cultura: o mito, a psique
infantil, o sonho, a loucura. A alma desmancha-se nas pedras, nos bichos, como
o sabor que não pode abstrair do alimento. (BOSI, 2013, p. 460)
O
diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor
vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se
caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco,
sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...
Explico
ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado,
ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum.
Nenhum! – é o que digo. (GSV, 1994, p. 6-7).
E em
ao longo da história, em diversas passagens, também é retomado o momento
em que em que Diadorim e Riobaldo se conheceram, como uma questão existencial:
Por
que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu, compadre meu
Quelemém não conheceu, milhões de milhares de pessoas não conheceram. O senhor
pense outra vez, repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar
o rio, defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí, capaz, passa. O
Chapadão é em sobre longe, beira até Goiás, extrema. Os gerais desentendem de
tempo. Sonhação – acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste
juntamente, depois, nas vezes em que no Menino pensava, eu acho que. Mas, para
quê? por quê? (GSV, 1994, p. 148).
Outro ponto importante a ser
considerado é o fato de que no sertão os rios e veredas serviam de orientação,
ou seja, os jagunços se localizavam por eles nas suas batalhas, utilizando o
espaço como estratégia para encurralar os inimigos.
Já
nosair da Nhanva, tinha composto seu povo em avulsos – cada grupo, cada rumo.
Um pelo São Lamberto, da mão direita; outro pegou o Riacho Fundo e o Córrego do
Sanhar; outro se separou da gente no Só-Aqui, indo o Ribeirão da Barra; outro
tomou sempre à mão esquerda, encostando ombro no São Francisco; mas nós, que
vínhamos mais Zé Bebelo mesmo em capitania, rompemos, no meio, seguindo o traço
do Córrego Felicidade. Passamos perto de Vila Inconfidência, viemos acampar no
arraial Pedra-Branca, beira do Água-Branca. E tudo correndo bem. Dum batalhão
para outro, se expedia gente com ordens e recados. Arrastávamos uma rede
grande, peixe grande por pegar (GSV, 1994, p. 181).
Por
essa perspectiva, pode-se perceber a contemplação, comum tanto em Sidarta
(Hesse, 2003, p. 115), como em GSV.
Na meditação profunda
oferece-se-nos a possibilidade de aniquilarmos o tempo, de contemplarmos,
simultaneamente, toda a vida passada, presente e futura. Então tudo fica bem;
tudo, perfeito; tudo, Brama. Por isso, o que existe me parece bom. A morte,
para mim, é igual à vida; o pecado igual à santidade; a inteligência, igual à
tolice. Tudo deve ser como é.
Antes
de partir definitivamente para a vingança, para a caça aos Judas, Riobaldo,
então chefe Urutu-Branco, volta às margens do Urucuia para receber as energia
necessárias da terra, respirar à beira, à vista dos buritizais, ouvir o
farfalhar as folhas e o berro dos bois. (JUNIOR, 2013, p. 61).
Considerações finais
Presume-se que a partir desta breve
análise pode-se realizar um estudo mais aprofundado acerca dos elementos aqui
tratados, tendo em vista outras perspectivas a serem abordadas, as quais
tornariam extenso o presente trabalho. Neste
sentido, cabe aqui o ensinamento proferido por Lao Tsé, criador da filosofia
taoísta, séc. VI a.C, que por meio da metáfora “O rio atinge seus objetivos
porque aprendeu a contornar obstáculos” tem mais sentido não apenas
empiricamente, mas se levado em consideração a própria simbologia que o rio e a
água tem, de transformação, transitoriedade e renovação, ao contornar os
obstáculos – algumas vezes impostos por si mesmo, para se chegar a algo maior:
onde o rio da vida desemboca no mar interior, o mar de si. E, além de realizar
esta travessia, como Riobaldo, a esmo de si, saber ouvir a voz do rio e
contemplar seus ensinamentos como no estado epifânico de Sidarta.
Referências
BOSI, Alfredo.
História concisa da literatura brasileira. 49 ed. São Paulo: Cultrix, 2013.
BUHLER, Andréa
de Morais Costa. As margens do devaneio: uma análise do conto “A terceira
margem do rio”, de João Guimarães Rosa. In: Graphos. João Pessoa, v. 8, n. 1, Jan./Jul./2006 – ISSN 1516-1536, p. 59-62.
FRANKEL. O caminho é sempre seu: uma leitura de
Sidarta, de Hermann Hessep. 203-219. Em tese Belo Horizonte, V. 21, N. 1,
Jan.-Abr. 2015.
GALVÃO, Walnice
Nogueira. Guimarães Rosa/ Walnice Nogueira Galvão. – São Paulo: Publifolha,
2000. - (Folha explica)
LEXIKON, Herder.
Dicionário de símbolos. Editora Cultrix, 1998.
MARINHO, Maria
Aparecida Silva. O Espaço e o Tempo em “Grande Sertão: Veredas”. Miguilim –
Revista Eletrônica do Netlli, Crato, v. 2, n. 2, p. 81-101, ago. 2013
PEREIRA, Luma.
50 anos de morte: Hermann Hesse ainda conquista leitores em todo o mundo.
Disponível em: <http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/47040>
Acesso em: 29 de junho de 2016.
RÓNAI, Paulo,
1908-1967. Grande Sertão: Veredas/ João Guimarães Rosa. - 19. ed. - Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 15-20.
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