TERTÚLIA SOBRE LIVRO DE
CLARICE LISPECTOR: A HORA DA ESTRELA
A forma
como ela constrói a narrativa me surpreendeu. Ela está dizendo que o narrador
Rodrigo, mas é ela, Clarice também.
Quando
eu tinha 17 anos, eu sofri um acidente de moto. Eu aceitei que eu ia morrer
naquele momento e eu vi minha vida passar na minha frente todinha. Se eu não
tivesse subido na moto eu ia viver, eu pensei. Foi a única vez na vida que eu
aceitei. Ele me jogou na curva e eu quebrei a clavícula. Serviu para pensar que
é importante para tomar a decisão. Eu mudaria tudo se pudesse.
Me
lembrei no nosso dia-a-dia, inspiramos e expiramos. Independente nós seguimos.
Ela
ficou em casa, colocou música e ficou dançando sozinha. Quem não gosta de ficar
sozinha e fazer isso?
Em
relação à minha vida, eu tive uma infância maravilhosa. Tenho os amigos de
infância até hoje. No whatsapp temos um grupo. Achei triste por ela ter sido
privada disso. Trouxe sequelas para ela!
Então,
a gente percebe no livro inteiro que a vida dela é minguada e que gastando
pouco a vida, ela vai viver mais. Só quando ela ascende é quando morre.
Eu amei o texto. O museu do
Amanhã hoje era a rua do Acre, que era malcheirosa. Quem conhece o centro do
Rio, sabe sobre a privação. O narrador é um pouco agressivo. A privação de ter
fome, a maquiagem Coty. Ela vai com esta privação. A tuberculose que ataca
todas as pessoas que se alimentam mal. A coca-cola é colocada como algo
insosso, passando fome, sendo agredida. Com fome, cantando, privada. Ela está
no limite do que é a sobrevivência. Ela não tem forças para reagir.
O futuro a gente espera o melhor.
Eu vi nela um pouco disso. Por mais que ela tivesse uma vida difícil, ela tinha
esperança mas era ingênua.
Não tem como pegar um trecho
específico. Porque eu pensava: está escrevendo de Macabéa ou de mim Como posso
sentir o cheiro-gosto de algo? Como saudade do futuro? Eu sinto
saudade de algo que eu não vivi. Adoro as artistas. Ela me entende. Eu só espero
que não enxergue a minha estrela na hora da morte. Não diria que foi um fim
trágico porque ela enxergou. Eu fui privada do meu chocolate. E minha mãe me
deu um pedaço e eu queria mais. Meus irmãos me prenderam no depósito e comeram
tudo.
Por que não falar da saudade se ela é
tão linda? Tem coisa melhor que mar gelado, violeta cheirosa? A gente sente
saudade das pessoas lindas, mas porque dói tanto?
Me chamou a atenção, como a lentidão
se dá pelas repetições das vogais. Dá a sensação mais profunda para o leitor.
A gente é tão ignorante que as
verdades das outras pessoas acabam se tornando as nossas.
O livro gera certa empatia. Uma dor de
dente constante, tocando um violino de fundo. No meio do texto há saudade do
que devia ter sido e não foi. Por medo, vergonha, a gente perde muito. Ela é só
datilógrafa. Ela é só isso. Me lembrou Clube da Luta, ele dizia “eu sou agente
de viagem”. E também o jogo de palavras: pensar é um ato e sentir é um fato. Se trocar
fica: o sentimento é um pensamento.
A palavra Macabéa é um anagrama de
acaba-me. Até pelo fato de falar da alma humana, eu posso ler o livro de novo
que verei outra coisa. Não é tão simples quanto parece.
Se interessou pelo livro “humilhados e
ofendidos”. Ela descobriu que era humilhada, mas uma consciência de segundos..
Uma sociedade técnica, onde ela era um
parafuso dispensável. Nos colocam assim, né?
Enquanto eu tiver perguntas e não
tiver respostas, eu continuarei a escrever. Esta frase do prefácio me fez
encantada com Clarice.
É deprimente, não se dá conta. Ela
tira a hora de estrela. Nós também temos que contribuir.
Esse livro toda parece que está
escrevendo a minha história. Eu nasci numa casa funcional. Brincava de roda,
fogueira. Uma vez o trem estava passando. A menina caiu e o trem cortou as duas
perninhas dela. Eu era feliz e esse fato marca. Ela tropeçou e ninguém
conseguiu salvá-la. Por que que eu vim pra cá. Eu queria voltar a brincar de
amarelinha. Até meu pai chegar, porque quando ele chegava, tinha que estar
dentro. Naquela época não tinha xxxxxxx, mas a gente gostava daquilo. Comia
todo mundo à mesa.
Os homens saem e vão para o bar, mas
meu pai não. Hoje não há essa união. O mundo tem muita coisa para oferecer,
internet, como tem doido, a gente tem que ter autocontrole.
O nome dela tem a ver com Macabeu e
tem a ver com Clarice. Tem a ver com um grupo de judeus que quer se libertar. A
aproximação com judaísmo, entendi. A hora da estrela, pois a estrela é o símbolo
do judaísmo.
Davi luta contra Golias. Golias era a
vida dela. Davi vence o gigante, mas ela foi vencida pela morte ou não, se a
morte é redenção.
A música é presente na obra e diz que
escrever é pintar. Todos temos esse momento de explosão.