terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Tertúlia feita com a turma do 4º semestre, na componente Literatura Brasileira

Quando eu escutei ‘rock rural’, eu lembrei do Cocoricó. Na minha cabeça, passar férias na fazenda é muito rock rural.
O locus amoenus faz muito sentido, fugir da cidade. No campo você não precisa de nada.
Diante da angústia, o meu quarto é meu mundo, é o lugar ameno. Onde tem os meus livros e discos e relaxo.
O que é inútil para mim pode não ser inútil para outro. Para mim é o Carpe Diem. O que eu posso me dar com prazer hoje.
Todas as expressões se encaixam na minha vida. Se fosse há dois anos eu queria morar no centro de Nova York, mas agora não tanto.
O locus amoenus eu coloco como um estado da minha vida. Um refúgio ameno. É sensacional essa música. O limite do corpo e nada mais. Me entrega para vida, sem buzinas nos ouvidos.
Eu fiquei o dia todo numa chácara. É realmente paz de espírito. É tanto problema, que quando você vai é como se nada importasse. Sente alívio. Eu estava entre meus melhores amigos, tentando deixar de lado os eletrônicos, o que me deixou mais leve.
Eu sou muito vida louca. De vez em quando a gente tem que buscar paz, mas eu prefiro a praia na cidade.
Estou aproveitando a vida. Quero tudo. Essa música é oda eu. Eu quero casa no campo, ter plantas, bichinhos, receber amigos. Casa da Jasci.
A minha casa no campo é pertinho da casa da Jasci. Casa com rio, que eu possa pescar com meus amigos. Eu gosto de dormir e acordar 05;30 com os cantos dos pássaros. Quero criar meus bichos, meu bode, ter um pomar. Ter uma casinha simples sem bugigangas. Na cidade a gente tem medo de ser assaltada.

O pôr do sol é lindo no campo. Contar histórias em volta da fogueira. A Elis viu num festival e quis gravar.
TERTÚLIA SOBRE LIVRO DE CLARICE LISPECTOR: A HORA DA ESTRELA

                A forma como ela constrói a narrativa me surpreendeu. Ela está dizendo que o narrador Rodrigo, mas é ela, Clarice também.
                Quando eu tinha 17 anos, eu sofri um acidente de moto. Eu aceitei que eu ia morrer naquele momento e eu vi minha vida passar na minha frente todinha. Se eu não tivesse subido na moto eu ia viver, eu pensei. Foi a única vez na vida que eu aceitei. Ele me jogou na curva e eu quebrei a clavícula. Serviu para pensar que é importante para tomar a decisão. Eu mudaria tudo se pudesse.
                Me lembrei no nosso dia-a-dia, inspiramos e expiramos. Independente nós seguimos.
                Ela ficou em casa, colocou música e ficou dançando sozinha. Quem não gosta de ficar sozinha e fazer isso?
                Em relação à minha vida, eu tive uma infância maravilhosa. Tenho os amigos de infância até hoje. No whatsapp temos um grupo. Achei triste por ela ter sido privada disso. Trouxe sequelas para ela!
                Então, a gente percebe no livro inteiro que a vida dela é minguada e que gastando pouco a vida, ela vai viver mais. Só quando ela ascende é quando morre.
Eu amei o texto. O museu do Amanhã hoje era a rua do Acre, que era malcheirosa. Quem conhece o centro do Rio, sabe sobre a privação. O narrador é um pouco agressivo. A privação de ter fome, a maquiagem Coty. Ela vai com esta privação. A tuberculose que ataca todas as pessoas que se alimentam mal. A coca-cola é colocada como algo insosso, passando fome, sendo agredida. Com fome, cantando, privada. Ela está no limite do que é a sobrevivência. Ela não tem forças para reagir.
O futuro a gente espera o melhor. Eu vi nela um pouco disso. Por mais que ela tivesse uma vida difícil, ela tinha esperança mas era ingênua.
Não tem como pegar um trecho específico. Porque eu pensava: está escrevendo de Macabéa ou de mim Como posso sentir o cheiro-gosto de algo? Como saudade do futuro? Eu sinto saudade de algo que eu não vivi. Adoro as artistas. Ela me entende. Eu só espero que não enxergue a minha estrela na hora da morte. Não diria que foi um fim trágico porque ela enxergou. Eu fui privada do meu chocolate. E minha mãe me deu um pedaço e eu queria mais. Meus irmãos me prenderam no depósito e comeram tudo.
Por que não falar da saudade se ela é tão linda? Tem coisa melhor que mar gelado, violeta cheirosa? A gente sente saudade das pessoas lindas, mas porque dói tanto?
Me chamou a atenção, como a lentidão se dá pelas repetições das vogais. Dá a sensação mais profunda para o leitor.
A gente é tão ignorante que as verdades das outras pessoas acabam se tornando as nossas.
O livro gera certa empatia. Uma dor de dente constante, tocando um violino de fundo. No meio do texto há saudade do que devia ter sido e não foi. Por medo, vergonha, a gente perde muito. Ela é só datilógrafa. Ela é só isso. Me lembrou Clube da Luta, ele dizia “eu sou agente de viagem”. E também o jogo de palavras:  pensar é um ato e sentir é um fato. Se trocar fica: o sentimento é um pensamento.
A palavra Macabéa é um anagrama de acaba-me. Até pelo fato de falar da alma humana, eu posso ler o livro de novo que verei outra coisa. Não é tão simples quanto parece.
Se interessou pelo livro “humilhados e ofendidos”. Ela descobriu que era humilhada, mas uma consciência de segundos..
Uma sociedade técnica, onde ela era um parafuso dispensável. Nos colocam assim, né?
Enquanto eu tiver perguntas e não tiver respostas, eu continuarei a escrever. Esta frase do prefácio me fez encantada com Clarice.
É deprimente, não se dá conta. Ela tira a hora de estrela. Nós também temos que contribuir.
Esse livro toda parece que está escrevendo a minha história. Eu nasci numa casa funcional. Brincava de roda, fogueira. Uma vez o trem estava passando. A menina caiu e o trem cortou as duas perninhas dela. Eu era feliz e esse fato marca. Ela tropeçou e ninguém conseguiu salvá-la. Por que que eu vim pra cá. Eu queria voltar a brincar de amarelinha. Até meu pai chegar, porque quando ele chegava, tinha que estar dentro. Naquela época não tinha xxxxxxx, mas a gente gostava daquilo. Comia todo mundo à mesa.
Os homens saem e vão para o bar, mas meu pai não. Hoje não há essa união. O mundo tem muita coisa para oferecer, internet, como tem doido, a gente tem que ter autocontrole.
O nome dela tem a ver com Macabeu e tem a ver com Clarice. Tem a ver com um grupo de judeus que quer se libertar. A aproximação com judaísmo, entendi. A hora da estrela, pois a estrela é o símbolo do judaísmo.
Davi luta contra Golias. Golias era a vida dela. Davi vence o gigante, mas ela foi vencida pela morte ou não, se a morte é redenção.

A música é presente na obra e diz que escrever é pintar. Todos temos esse momento de explosão.


domingo, 10 de julho de 2016


Por Audrey Kajiwara.


O Sertão de Sidarta e a iluminação de Riobaldo

            Ler o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa é, sobretudo, adentrar-se na complexidade do ser num complexo labirinto tal qual a alma do ser humano. Uma experiência de autoconhecimento, para o mais “alto” conhecimento, pressupõe-se um fino estudo a que se pode dedicar com um olhar investigador, com conclusões questionáveis ao longo da eternidade. Ora, não é à toa que o símbolo do livro é o infinito, como num ciclo sem fim, aonde tudo termina é o mesmo ponto aonde tudo (re) começa.
            Segundo Galvão (2000, p. 28) toda obra de Guimarães Rosa começa e termina no sertão, sendo esse seu universo, seu horizonte, seu ponto de partida e de chegada. Trata-se, portanto, nesse livro, do sertão de Minas Gerais,  com pastagens boas para gado, abundância de água e entre tantos os rios que o cortam, com seus afluentes, o principal é o São Francisco (GALVÃO, 2000, p. 29).
            No entanto, cabe fazer um breve recorte quanto à presença do elemento “rio” no Grande Sertão: Veredas (GSV), sobretudo o Rio São Francisco,  onde, ainda menino, a vida de Riobaldo é marcada ao conhecer Diadorim e Urucuia, onde Riobaldo se despede ao ir para a guerra contra os Judas. Propõe-se, então, uma relação com o romance Sidarta, de Hermann Hesse, uma vez que essa obra tem o rio com forte simbologia também nessa obra. Pretende-se ainda, elencar outros elementos de suma importância aos quais complementarão o referido intertexto.
            De modo a pautar esta análise em conceitos mais consistentes, os significados para “água” e “rio” aqui propostos estão baseados no Dicionário de Símbolos, doravante DS, de Herder Lexikon, aos quais são introdutórios no presente trabalho.
            Desde os tempos mais remotos, a água tem fundamental importância para a sobrevivência  humana como o mais importante recurso natural de consumo comum aos seres vivos, bem como no sentido do desenvolvimento da agricultura e da economia. Ligada às mais diversificadas culturas, vem carregada de profundos significados, muitos deles ligados à criação do universo e, ainda, valores religiosos, como ao batismo e à cura.
Símbolo com um horizonte complexo de significados, com massa informe e indiferenciada simboliza  a infinitude de possibilidades ou os primórdios de todo o devir, a matéria prima. Nesse sentido aparece em inúmeros mitos da criação (...). A água simboliza também a força da regenerescência e purificação física, psíquica e espiritual, tanto no islamismo, no hinduísmo e no budismo como no cristianismo. (...) Na China, a água está subordinada ao princípio yin e em outras culturas também está quase sempre ligada ao feminino, à profundeza escura e à lua, à fertilidade e à vida e à vida espiritual (DS, p. 13).
            Conforme o DS (p. 172), diretamente ligado à água, o Rio, em função da sua importância para a fertilidade, costumava a ser venerado como divindade pelos Gregos e Romanos. A fluidez faz dele símbolo do tempo e da transitoriedade, mas também da constante renovação. A confluência de todos os rios para o mar simboliza a união  da individualidade e do absoluto: por exemplo, no budismo e no hinduísmo, na qualidade de símbolo na inserção do nirvana.
            A busca por si, de tão desafiadora, pode deixar muitas marcas. Prova disso, é que Hermann Hesse é considerado o autor alemão com mais traços autobiográficos, sendo duas as temáticas que mais perpassem seus escritos: crise existencial e a busca ou desenvolvimento espiritual; e Sidarta foi concluído e publicado em 1922, após um período de depressão em que foi atendido por C. G. Jung. 
Assim todos amavam Sidarta. A todos causava ele alegrias. Para todos, era fonte de prazer.
Mas a si mesmo Sidarta não se dava alegria. Enquanto passeava pelas sendas rosadas do figueiredo, enquanto se mantinha sentado na penumbra azulada do bosque da contemplação, enquanto abluía o corpo no cotidiano banho expiatório, ou fazia sacrifícios rituais no mangueiral envolto em sombras profundas, fazendo gestos de primorosa correção, despertando amor em toda gente, deliciando a todos, não sentia, não sentia, ainda assim,  nenhuma satisfação em sua própria alma. (HESSE, 2003, p. 10)

             (Sidarta) “É fruto de uma viagem à Índia, que colocou o autor em contato com a cultura oriental. A história é narrada pelo próprio Buda, contando sobre a busca pela plenitude espiritual.” (LASCH apud pereira, 2012).
            Sidarta, filho de brâmane, casta a qual pertenciam sacerdotes, filósofos e religiosos e, segundo os hindus acreditavam ter nascido da boca do deus Brahma, demonstrando o alto da pirâmide nas castas. Juntamente com seu fiel amigo Govinda, abandonou tudo para seguir os samanas, para esvaziar-se de tudo, aprendeu a jejuar, mas posteriormente entende que suas práticas nada mais eram que maneiras de fugir de si mesmo. Resolvem seguir novamente até que ouvem falar do iluminado Gotama, o Buda,  e vão ao seu encontro. Govinda decide seguir Buda após ouvir o Dharma, seguindo a doutrina e deixando Sidarta. Para ele, não que essa não fosse a mais absoluta verdade, mas ele acreditava que era preciso aprender pela experiência e não pelo conhecimento.
Caminhando cada vez mais devagar, absorvido pelos pensamentos, Sidarta perguntou-se a si mesmo: "Mas que desejaste aprender dos teus mestres e extrair dos seus preceitos? Que será aquilo que eles, que tanto te ensinaram, não conseguiram propiciar-te?" E ele encontrou a resposta: "Era meu desejo conhecer o sentido e a essência do eu, para desprender-me dele e para superá-lo: Porém não pude superá-lo. Apenas logrei iludi-lo. Consegui, sim, fugir dele e furtar-me às suas vistas. Realmente, nada neste mundo preocupou-me tanto quanto esse eu, esse mistério de estar vivo, de ser um indivíduo, de achar-me separado e isolado de todos os demais, de ser Sidarta! E de coisa alguma sei menos do que sei quanto a mim, Sidarta!" Como que agarrado a esse raciocínio, o moço interrompeu a lenta caminhada e de um pensamento nasceu outro, diferente: "O fato de eu não saber nada a meu próprio respeito, o fato de Sidarta ter permanecido para mim um ser estranho, desconhecido, tem sua explicação numa única causa: tive medo de mim; fugi de mim mesmo! Procurei o Átman, procurei o Brama, sempre disposto a fraturar e a pelar o meu 'eu', a fim de encontrar no seu âmago ignoto, o núcleo de todas as cascas, o Átman, a vida, o elemento divino, o Último. Mas, enquanto fazia isso, perdi-me a mim mesmo." (HESSE, 2003, p. 36-37)
            Buhler (2006, p. 60), em menção ao conto “A terceira Margem do Rio”, coloca que o pai incorpora a ambivalência do drama essencial entre o si mesmo e o mundo, os quais são correlatos à primeira e à segunda margem do rio, ideia da qual pode-se compreender a essência humana.
            A partir do momento que Sidarta segue sozinho, passa a ver o mundo de outra forma, tudo parece mais bonito e lhe chamar a atenção. A esta altura, pode-se pressupor que a transposição do rio pela primeira vez,  marca uma passagem iniciática na vida dele, muito presente também nas obras Rosianas.
À noite, enquanto dormia na choupana de palha de um balseiro, junto à ribeira, Sidarta teve uma visão: aparecia-lhe Govinda, vestindo os trajes amarelos dos ascetas. Seu rosto parecia abatido e em voz triste disse ele: "Por que me abandonaste? " E Sidarta abraçou o amigo. Mas, enquanto o enlaçava nos braços e o estreitava ao peito, já não era Govinda a quem cingia, senão uma mulher, de cujo vestido saia um seio opulento. Sidarta encostou a boca nesse seio e bebeu. O sabor do leite era doce e forte. Sabia a macho e fêmea, a sol e mato, a animal e flor, a todas as frutas, a todos os prazeres. Embriagava e provocava tonturas. Quando Sidarta acordou, cintilavam as águas do rio, lançando um clarão lívido pela porta da choupana. Da selva ressoava, profundo e distinto, o grave chamado de uma coruja. Logo que raiou o dia, Sidarta pediu a seu anfitrião que o conduzisse ao outro lado. Na jangada de bambu, o bolseiro transportou-o através do vasto rio, cuja água resplandecia rosada à luz da aurora.
- Que lindo rio! - disse Sidarta ao companheiro.
- Pois é - respondeu o balseiro. - É muito lindo. Prefiro esse rio a todo o resto do mundo. Muitas vezes escutei o seu murmúrio, muitas vezes observei o seu olhar e nunca deixei de aprender dele. Um rio pode ensinar-nos tanta coisa.
- Agradeço-te, ó meu benfeitor - disse Sidarta, ao desembarcar. - Não te posso dar nenhum presente, para retribuir a tua hospitalidade. Não tenho com que te pagar, meu caro. Sou um homem sem lar. Sou filho de brâmane e samana.
- Eu sabia disso - replicou o bolseiro - e não esperei da tua parte nenhuma recompensa, nenhum presente. Em outra ocasião me darás algum mimo.
- Achas mesmo? - perguntou Sidarta jovialmente.
- Tenho certeza. Também isso aprendi do rio: tudo volta. Tu também voltarás, ó samana. Passa bem! Que tua amizade seja meu salário. Lembra-te de mim, quando ofereceres um sacrifício aos deuses.
Separaram-se comum sorriso. Risonho, Sidarta aprazia-se com a gentileza e a amabilidade do balseiro. "Ele se parece com Govinda" - pensou, sorrindo. - "Tais pessoas ficam gratas, apesar de poderem, elas mesmas, reivindicar gratidão. Todas elas são submissas, querem ser amigas, gostam de obedecer, não gostam de pensar muito. Esses homens são verdadeiras crianças." (HESSE, 2003, p. 45-46)

            Sidarta se sente vivo, conhece Kamala – uma prostituta, com quem passa a relacionar-se e começa ter vivências tão (humanas) mundanas, como trabalhar, lidar com o dinheiro,  jogar, comer demasiadamente, até quase não ouvir mais sua voz interior. Isso o fez sofrer.
            De acordo com Hesse (2003, p. 75), agarrando-se ao tronco, cravou os olhos nas verdes águas e almejava de todo coração desprender-se, afogar-se naquele rio, em cuja superfície se espelhava um vazio tremendo, qual reflexo do pavoroso vazio de sua própria alma. 
Nesse momento, um som começou a vibrar nele, vindo de longínquas regiões da sua alma, de épocas passadas da sua existência gasta. Era uma única palavra, uma só sílaba que ele pronunciou inconscientemente, em voz insegura. Era a velhíssima palavra inicial e final de todas as orações do bramanismo, o sagrado Om, que significa o Perfeito ou a Perfeição. E logo que ouviu o Om a ressoar no seu íntimo, seu espírito, bruscamente acordado do sono, percebeu a estupidez do ato que ele ia cometer. Estremeceu. (HESSE, 2003, p. 75)
            Sidarta sente que ali deve ficar, com o balseiro que outrora o transportou, junto ao rio, para  uma nova vida que por sua vez já ficou velha e morreu. (HESSE, 2003, p. 85).
Mas, pelo fim da narrativa de Sidarta, quando este descrevia a árvore na ribeira, a queda profunda e o efeito do sagrado Om, quando contava como, ao acordar do sono, sentira aquele caloroso apego ao rio, o balseiro ouviu-o com dupla atenção, conservando os olhos fechados e abandonando-se inteiramente às palavras de seu hóspede (HESSE, 2003, p. 88). (...) - Hás de aprender isso - replicou Vasudeva - porém não de mim. Quem me ensinou a escutar foi o rio e ele será o teu mestre também. O rio sabe tudo e tudo podemos aprender dele. Olha, há mais uma coisa que a água já te mostrou: que é bom descer, abaixar-se, procurar as profundezas. O rico e nobre Sidarta converte-se num remador; o erudito brâmane Sidarta torna-se balseiro. Também isso te sugeriu o rio. O resto, ele te ensinará ainda (HESSE, 2003, p. 89.
           
            O tempo é um elemento intrinsecamente relacionado rio presente, nos dois romances,  no que tange à temporalidade. Pressupõe-se que o rio representa a consciência, um estado a que Sidarta fora adquirindo ao longo da vida, após vivenciado algumas experiências mas tenha compreendido na velhice, por conseguir, por fim, ouvir “a voz” do rio. E quando ele ouve o Om,  cessa seu sofrimento e assim como seu mestre, o barqueiro, ensina e aprende com o rio.
Sidarta certo dia pergunta para Vasudeva: “o rio também te comunicou o misterioso fato de que o tempo não existe?”  Vasudeva traduz a metáfora: o rio se encontra ao mesmo tempo em toda a parte, tanto na fonte como na foz. Sidarta incorporando em sua vida essa ‘iluminação’, compreende que o “menino Sidarta não estava separado do homem Sidarta e do ancião Sidarta, a não ser por sombras, porém, nunca por realidades”. O conceito vulgar de tempo é abandonado. Sidarta deixa de lado o que seria a “‘representação’ teórica de um fluxo contínuo de agoras”. “Nada foi, nada será; tudo é, tudo tem existência e [é] presente”. Ele percebe que todo o sofrimento pertence ao tempo, e que é preciso derrotá-lo pelo pensamento. A água que Vasudeva e Sidarta escutam “não era apenas água, senão a voz da vida, a voz do que é, a voz do eterno Devir” (FRANKEL, 2015, p. 212).
           
            Em o GSV, segundo Ronái (2001, p. 17). o narrador parece  experimentar vários rumos, embrenha-se numa atalho, marca passo, desvia-se, volta ao ponto inicial, recomeça a ação, parece fragmentar-se  num labirinto de episódios desconexos.  (...) de repente, após uma travessia do rio São Francisco, ele nos faz desembocar numa estrada real, de horizonte dilatado, por onde a história se desenrola ampla, épica, irresistível, levando de roldão qualquer estranheza ou resistência.
            No primeiro encontro entre Riobaldo e Diadorim, ainda na adolescência, Riobaldo estava realizando sua passagem iniciática, como se “a seu esmo” fosse um ir de encontro com seu próprio eu, sendo conduzido por Dizorim, para uma nova vida – a de jagunço. Neste sentido, pode-se fazer uma analogia a um mergulho em si mesmo. “Resolvi ter brio. Só era bom por estar perto do menino. Nem em minha mãe eu não pensava. Eu estava indo a meu esmo.” (GSV, 1994, p.  143).
            Riobaldo recebera do Menino uma lição de coragem quando da travessia do São Francisco numa canoa (GALVÃO, 2000, p. 48):
Quieto, composto, confronte, o menino me via. – “Carece de ter coragem...” – ele me disse. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – “Eu não sei nadar...” O menino sorriu bonito. Afiançou: – “Eu também não sei.” Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz. – “Que é que a gente sente, quando se tem medo?” – ele indagou, mas não estava remoqueando; não pude ter raiva. – “Você nunca teve medo?” – foi o que me veio, de dizer. Ele respondeu: – “Costumo não...” – e, passado o tempo dum meu suspiro: – “Meu pai disse que não se deve de ter...” Ao que meio pasmei. Ainda ele terminou: – “... Meu pai é o homem mais valente deste mundo.” (GSV, 1994, p.  146).
            Para Marinho (2013, p. 87),  o  rio apresenta a possível divisão entre o bem e o mal, sendo o lado direito o bem e o lado esquerdo, o mal.  O lado direito, de Diadorim, do chefe dos jagunços Joca Ramiro, personifica a vida. A margem direita representa o amor, a alegria, o sossego, a tranquilidade, a amizade, a justiça e todos os sentimentos bons, sob o comando de Deus. Na margem esquerda estão os sentimentos ruins como o ódio, a tristeza, a injustiça. O lado esquerdo, do inimigo Hermógenes, da vingança, das veredas - mortas, personificam a morte e é a margem comandada pelo demônio.
O espaço do movimento das águas dos rios. Ou do Rio, se quisermos desde já relacioná-lo ao rio São Francisco, o “Rio Capital” que, se de um lado separou a vida do herói em duas partes, de outro separa dois mundos: o da “ordem”, a partir da sua margem direita, ou ao Sul/Leste, e o do “caos” a partir da margem esquerda ou ao Norte/Oeste. Riobaldo é colocado como mediador, como integrador de dois mundos, uma espécie de terceira via, ou a própria forma da expressão, uma forma retórica. (JUNIOR, 2013, p. 62)
            Agora, por aqui, o senhor já viu: Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda. E algum ribeirão. (GSV, 1994, p.  96).
             O narrador descreve as belezas do “De Janeiro”, como as águas claras, as flores e os animais, e ao fundir-se com o grande São Francisco, apontando o tamanho do rio, que o assusta, no outro lado,  as beiras sem praias, tristes, com tudo parecendo meio podre, a “lameada da cheia derradeira”, o medo da canoa virar. E Riobaldo, ao atravessar o rio São Francisco realiza sua passagem iniciática,  perdendo o medo.
            Neste encontro, entre Riobaldo e, o então menino Diadorim, também é possível observar aspectos femininos e masculinos como o fato de Riobaldo ter sido criado pela mãe e Diadorim estar travestido de homem e ser criado pelo tio, bem como elementos à beira do rio, tais como as a árvores, gameleiras e Pau d’óleo. E durante toda a travessia de Riobaldo pelo sertão estão presentes questionamentos, inquietações e dúvidas sobre a real existência de Deus e do Diabo, mostrando a dualidade  e a polaridade da vida: o bem e o mal, o feminino e o masculino.
            Para Bosi, o  conflito entre eu/ herói e o mundo (que nos tem valido de fio de Ariadne no labirinto da ficção moderna) não desaparece no grande romance de Guimarães Rosa: resolve-se mediante o pacto do homem com a própria origem das tensões: o outro, o avesso, “os crespos do homem”. (...) Nesse todo positivo interpenetram-se o sensível e o espiritual de tal sorte que o último acaba parecendo uma intenção oculta da matéria (“Tem diabo nenhum, nem espírito”), que se manifesta nos modos pré-lógicos da cultura: o mito, a psique infantil, o sonho, a loucura. A alma desmancha-se nas pedras, nos bichos, como o sabor que não pode abstrair do alimento. (BOSI, 2013, p. 460)
O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...
Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. (GSV, 1994, p. 6-7).

            E em  ao longo da história, em diversas passagens, também é retomado o momento em que em que Diadorim e Riobaldo se conheceram, como uma questão existencial:
Por que foi que eu conheci aquele Menino? O senhor não conheceu, compadre meu Quelemém não conheceu, milhões de milhares de pessoas não conheceram. O senhor pense outra vez, repense o bem pensado: para que foi que eu tive de atravessar o rio, defronte com o Menino? O São Francisco cabe sempre aí, capaz, passa. O Chapadão é em sobre longe, beira até Goiás, extrema. Os gerais desentendem de tempo. Sonhação – acho que eu tinha de aprender a estar alegre e triste juntamente, depois, nas vezes em que no Menino pensava, eu acho que. Mas, para quê? por quê? (GSV, 1994, p. 148).
            Outro ponto importante a ser considerado é o fato de que no sertão os rios e veredas serviam de orientação, ou seja, os jagunços se localizavam por eles nas suas batalhas, utilizando o espaço como estratégia para encurralar os inimigos.
Já nosair da Nhanva, tinha composto seu povo em avulsos – cada grupo, cada rumo. Um pelo São Lamberto, da mão direita; outro pegou o Riacho Fundo e o Córrego do Sanhar; outro se separou da gente no Só-Aqui, indo o Ribeirão da Barra; outro tomou sempre à mão esquerda, encostando ombro no São Francisco; mas nós, que vínhamos mais Zé Bebelo mesmo em capitania, rompemos, no meio, seguindo o traço do Córrego Felicidade. Passamos perto de Vila Inconfidência, viemos acampar no arraial Pedra-Branca, beira do Água-Branca. E tudo correndo bem. Dum batalhão para outro, se expedia gente com ordens e recados. Arrastávamos uma rede grande, peixe grande por pegar (GSV, 1994, p. 181).


            Por essa perspectiva, pode-se perceber a contemplação, comum tanto em Sidarta (Hesse, 2003, p. 115), como em GSV.
Na meditação profunda oferece-se-nos a possibilidade de aniquilarmos o tempo, de contemplarmos, simultaneamente, toda a vida passada, presente e futura. Então tudo fica bem; tudo, perfeito; tudo, Brama. Por isso, o que existe me parece bom. A morte, para mim, é igual à vida; o pecado igual à santidade; a inteligência, igual à tolice. Tudo deve ser como é.
            Antes de partir definitivamente para a vingança, para a caça aos Judas, Riobaldo, então chefe Urutu-Branco, volta às margens do Urucuia para receber as energia necessárias da terra, respirar à beira, à vista dos buritizais, ouvir o farfalhar as folhas e o berro dos bois. (JUNIOR, 2013, p. 61).
Considerações finais
            Presume-se que a partir desta breve análise pode-se realizar um estudo mais aprofundado acerca dos elementos aqui tratados, tendo em vista outras perspectivas a serem abordadas, as quais tornariam extenso o presente trabalho.   Neste sentido, cabe aqui o ensinamento proferido por Lao Tsé, criador da filosofia taoísta, séc. VI a.C, que por meio da metáfora “O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos” tem mais sentido não apenas empiricamente, mas se levado em consideração a própria simbologia que o rio e a água tem, de transformação, transitoriedade e renovação, ao contornar os obstáculos – algumas vezes impostos por si mesmo, para se chegar a algo maior: onde o rio da vida desemboca no mar interior, o mar de si. E, além de realizar esta travessia, como Riobaldo, a esmo de si, saber ouvir a voz do rio e contemplar seus ensinamentos como no estado epifânico de Sidarta.
Referências

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 49 ed. São Paulo: Cultrix, 2013.
BUHLER, Andréa de Morais Costa. As margens do devaneio: uma análise do conto “A terceira margem do rio”, de João Guimarães Rosa. In: Graphos. João Pessoa, v. 8, n. 1, Jan./Jul./2006 – ISSN 1516-1536, p. 59-62.
FRANKEL. O caminho é sempre seu: uma leitura de Sidarta, de Hermann Hessep. 203-219. Em tese Belo Horizonte, V. 21, N. 1, Jan.-Abr. 2015.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Guimarães Rosa/ Walnice Nogueira Galvão. – São Paulo: Publifolha, 2000. - (Folha explica)
LEXIKON, Herder. Dicionário de símbolos. Editora Cultrix, 1998.
MARINHO, Maria Aparecida Silva. O Espaço e o Tempo em “Grande Sertão: Veredas”. Miguilim – Revista Eletrônica do Netlli, Crato, v. 2, n. 2, p. 81-101, ago. 2013
PEREIRA, Luma. 50 anos de morte: Hermann Hesse ainda conquista leitores em todo o mundo. Disponível em: <http://www.saraivaconteudo.com.br/Materias/Post/47040> Acesso em:  29 de junho de 2016.

RÓNAI, Paulo, 1908-1967. Grande Sertão: Veredas/ João Guimarães Rosa. - 19. ed. - Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 15-20.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Memória 14 de Abril de 2016

                           Tertúlia Grande Sertão: Veredas



              É o resumo do meu poema e da fase que estou vivendo. Eu não sou ruim, mas muitos me veem assim e, por querer ajudar, muitos me veem como intrometida. Eu não fico com raiva da pessoa, eu não estou buscando o perdão das pessoas, mas delas mesmas pela imagem que criam de mim. Eu me culpo demais e escuto coisas que não deveria escutar. E eu tenho dentro de mim a bondade e acabo trazendo tudo pra mim. Esse trecho mexeu comigo porque hoje todas as pessoas pregam o amor, mas no fundo sentem ódio. O que é o ódio? Meu filho me perguntou e eu não soube responder por que também tenho ódio. Estou fugindo de dar uma resposta, mas ele quer saber o que eu penso. Quando li essa frase pensei que às vezes precisamos fazer escolhas e muitas das vezes isso define se seremos felizes ou tristes. Tudo passa pelo olhar. O que tinha entendido do que a Nathália escreveu era outra coisa e quando coloquei os óculos é entendi o que era. Depende de que óculos se usa na vida para se ter uma visão de algo. Às vezes a gente precisa tomar uma decisão e não toma. Eu também sou ruim, mas todos somos bons e ruins, estamos no meio. Não sei se sou feia ou bonita, sou os dois.       

Eu tenho medo de fazer algo a alguém e a pessoa achar ruim de eu ajudá-la. Talvez ela não aceite por medo, por achar que é autosuficiente, mas até um cachorro late mostrando para o dono que tem alguém desconhecido no quintal. Me chamou atenção a parte em que o Riobaldo estuprou uma mulher e ele disse que nunca mais ia fazer aquilo. E Diadorin disse que mulher era bicho infeliz e por isso não queria ser mulher. Isso me chamou atenção porque sofri abuso e é uma coisa que sempre me toca muito, uma ferida que a gente aprende a lidar, mas não cura nunca. Sempre vem nas minhas relações e na convivência com os outros. E tem que conviver o resto da vida. Um machucadão, uma desordem que mexe profundamente com o ser. O Riobaldo é esse ser que não tem fronteira entre o bem e o mal, sempre transita entre os dois mundos. E isso me faz lembrar que todo abusador foi abusado, ele se via compelido a fazer o mesmo que seus companheiros. Teve uma visa miserável, a relação de machismo e ausência paterna e teve que ter a experiência de abusador para decidir não fazer mais. Quem foi abusado tem que trabalhar a entrega porque na hora do abuso a pessoa se fecha.  


Ele queria que aquelas mulheres gostassem dele pelo seu ser e não pela força, o que me faz mais uma vez olhar para minha ferida, integrar e reconhecer, por mais difícil que seja, sei que o abusador também está nessa linha tênue entre o bem e o mal, como eu. Preciso perdoar, porque ele também foi abusado e se se eu não perdoá-lo, não me livro dele nunca. Essa parte está muito ligada a um momento que eu venho superando. Houve um momento em que eu precisava de limites e outro em que eu tinha muito limite. Eu percebi e entendo isso de estar contido, é por isso que mesmo quando tudo está ruim ainda se tem a esperança de ficar bom. Quando foi proposta a ideia de ler o livro fiquei receosa de como seria isso. Eu tenho observado, ao decorrer das aulas, e vejo que está sendo humanizador, o conteúdo do livro e também as experiências compartilhadas, porque nós estamos no sertão e nas veredas também. É uma via de mão dupla. Esse trecho me marcou muito porque fala da nossa experiência humana, o bom, o belo, e mexe muito com a nossa essência. Um livro antigo que se lermos com atenção, se tivermos o sentimento de reflexão, ele vai trazer algo para nós e para as gerações futuras. E ser humano, como acontecia antigamente, na época de Diadorim que mesmo com tantas questões, ele também era humano. Quando a amizade de Diadorim e Riobaldo estremeceu um pouco, me fez parar para pensar nas minhas amizades atualmente. Quem são os meus amigos? Amigos são aqueles com quem se pode se abrir e expor sem que a sociedade imponha, mas pela essência da verdadeira amizade, porque não se pode viver sem amigos e isso é importante, é o que basta. 


Resumiu tudo o que eu sinto, o medo de errar me impede de viver verdadeiramente, conhecer novas coisas e fazer coisas que gosto. O medo destrói por dentro, limita por dentro, limita a gente. Preciso destruir essa barreira e isso é difícil. Existem episódios na nossa vida que não valorizamos, como o próprio ato de comer, se vestir, um beijo ou um abraço, e ele aponta experiências corriqueiras, do cotidiano que nos mostram que é preciso ter gratidão, dar valor. Quando se perde é que se dá valor, coisas corriqueiras e expressões também precisam ser valorizados. Eu me identifico com a experiência do Riobaldo, que fizeram com que ele ficasse fechado. Ele fica se julgando sobre o sentimento por Diadorim, por ser jagunço. Mas ele tem vontade de viver. Muitas coisas que eu passei não me permitem uma entrega verdadeira, mas agora quero me permitir e vivenciar. Me deu uma gastura quando Guimarães consegue mostrar uma linha muito tênue entre o animal e o homem, porque eles tem características animalescas naquele grupo. A cena de raspar os dentes com a faca e a volta do homem à sua animalidade. Eu adorei esse trecho pela força da catarse da literatura por me permitir vê-los certinho, lixando os dentes e o Riobaldo dizer não. Riobaldo não está inconsciente fazendo as coisas, ele aparece como a consciência humana: ser atroz é também ser humano. Gostei da sensação... 


O Riobaldo fala da dificuldade de ser verdadeiro quando algo já passou. Ele traz duas questões aí, um intertexto com Proust, onde ele relata que vai ter ciúme e amor 20 anos depois, revisitando afetos que não foram vividos naquele momento. William Blake fala que imaginação e vida é a mesma coisa porque o imaginado vem da experiência. O que vou lembrar pode vir carregado de vida porque é meu, foi vivido. Sobre contar o acontecido: às vezes as coisas demoram em gente entender. Uma reflexão sobre a memória humana. Proust descobriu que o olfato é o sentido que está mais ligado à memória, às lembranças. A literatura, assim como as artes, nos falam coisas sobre nós que ainda não foram racionalizadas por nós, nem explicadas, inclusive cientificamente. Riobaldo reclama dessa dificuldade de narrar, ele se questiona sobre o porquê dele pular uma parte do que estava contando, questionando o porquê não contamos tudo. Quando a gente se lembra só do que é ruim, fica igual ao cavalo que não via coisas boas; o ser humano quando lembra da vida fica mais ligado nas coisas ruins do que nas boas. Quando viveu a coisa não sentiu, mas quando recordou ele sentiu, é a síntese do pensamento do Proust, a memória é a reconstituição de uma segunda vida nossa, a possibilidade de se reconhecer numa coisa que não viveu, refazendo sua vida num outro sentido. Grande Sertão é um intertexto profundo com “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust.









Memória 31 de Março de 2016

                  Tertúlia Grande Sertão Veredas 


O que acabou de acontecer com o Ramon ama e odeia. A gente tem livre arbítrio para fazer. Tem que escolher e pode ficar sozinho no sertão. É uma questão de discernimento. É o terceiro olho. É como ele disse: fazer ou não fazer é uma questão de escolha.
Mostra a dualidade no caso da teoria. Mostra a bondade e a maldade dos pais que bate nos filhos. Na ansiedade de fazer tudo certo eu me embanano.
Eu gostei da mandioca brava. Como pode algo parecer perfeito e fazer mal. Pesquisei: tem a mandioca mansa e a brava. Ela parece normal, temos que ter olhar para saber o que é bom e que não é.

Mostra esta dualidade. A gente não é bom ou ruim, é os dois. Sobre a Valnice, ela fala sobre proezas cavalheirescas, ao mesmo tempo pode defender e matar.
Eu me identifiquei: eu decidi um caminho, mas porque posso mudar.
Me acalma quando eu oro. As vezes no dia a gente se sente bem. Eu oro e isso me aquieta.
Só nesta história ele fala disso e trás a gente para cá. O que a gente mais evita é o que está escondido dentro da gente.
Sou muito autentica, mas os outros me taxam de diferente, porque falo o que penso.
Fazendo um paralelo com o texto da Valnice de, a realidade, ser você acredita uma coisa como vai negar a parte má. Como você sabe se está fazendo o bem se não sabe o que é o mal. Tem que acreditar o mal para fazer o bem.
Eu me vi no texto. Eu tenho muita dificuldade de acreditar num elogio, mas acredito nas criticas. Eu sou muito desconfiada. É medo de se machucar. Mas geralmente eu não estou equivocada.
Me identifiquei com o quase. Em relação a deus, a pessoa quase acredita, por um efeito social. Não ou sim ela fala quase.
O mundo vai acabar e a gente não vai saber. Se a gente reencarna ou não, é uma questão universal, o que movimenta a gente é a alma. Há coisas medonhas demais, as vezes é uma dor que não é nem física, mas você não sabe o que dói.

A Valnice fala da universalidade, o G. R fala da transcendência. O livro faz uma sondagem interior, seja como for, ele fala em romance universalizante, mesmo na roupagem sertaneja a leitura interior entre céu e inferno e ai fica aquela coisas imaginária. A gente tem momentos de crise. Você não sabe que esta certo, as pessoas criticam. Você vive ... porque tem medo da língua do povo. Os seus desejos fica escondidos as vezes deixa de ser feliz com medo. É um sofrimento. É a nossa realidade. A única coisa que faz efeito é o que sai. Durante toda a minha vida sempre pensei por mim, pensei diferente, agi diferente, me senti deslocado, por não me encaixar nos trilhos. Não saber realmente é bem ou mal. Não sei se o que sinto é bom ou mal. Tenho dificuldade de diferenciar um do outro.

A minha é sobre o ócio, criação e poesia. Eu adorei essa parte porque liguei o ócio à criação e a criação devolve nossa humanidade poética, sem tempo para pensar nas coisas ficamos automatizados, longe da nossa verdade. É bem profunda, a cachoeira depende do barranco e da água. Se interferirmos acabamos com o que é pré-determinado. Acabei de ler um livro “ócio criativo”, fala de um conceito que gosto muito e gostaria de vivê-lo, trabalhar sem sentir que trabalho, trabalhar de modo criativo. Fazer de modo verdadeiro, sem esses modelos de velhas regras. Sair do padrão para ir a um lugar onde você cria com prazer.

Desentramento Poético Grande Sertão: Veredas

                                                                  JAGUNÇO


Nonada
Tiros que o senhor ouviu
O diabo vige dentro do homem
Tem até tortas raças de pedras, horrorosas, venenosas.
O voo já está pronto
O senhor rela faca em faca
Negócio particular dele
O mais importante e bonito, do mundo é isto.

                                            Juliana Reis



Diadorim (em primeiro plano) e o jagunço Riobaldo na graphic novel. Grande Sertão: Veredas’ - Guimarães rosa, Rodrigo Rosa e Eloar Guazzelli (Ed. Globo, 180 págs.; R$ 200)



Desentranhamento Poético Grande Sertão: Veredas

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A raiva incerta, no honrado e no final.
O amor? Pássaro que põe ovos de ferro
Não dava transparecer o que cismava profundo
Dele eu queria saber?
Só se queria e não queria
Voltei para os frios da razão

Ramon de Souza

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