quarta-feira, 23 de março de 2016

Desentranhamento Poético João Guimarães Rosa

                                      Somos meninas de lá 


Ninguém entende muita coisa que ela fala

Menina grande! Menina grande!

O ar estava com cheiro de lembrança

Deixa... Deixa...

A gente não vê quando o vento se acaba

Os outros se pasmaram, silenciaram demais

Sentiam um medo extraordinário da coisa 

"Eu quero ir para lá" - Aonde? - "Não sei"

Repetia: "Tudo nascendo"

Parece que foi de manhã

Só, sentada, olhando o nada diante das pessoas

E ninhinha gostava de mim.

"Eeu? Tou fazendo saudade" 


                                           
    Nath Oh 


Desentranhamento Poético João Guimarães Rosa

                          A Terceira Margem do Rio


Só quieto,
Pai mandou fazer para si uma canoa.
Era sério, sem alegria nem cuidado;
Pai suspendeu a resposta.
Entrou na canoa e desamarrou, pelo remar.
Pai não voltou.
Se desertava para outra sina de existir.
Solto solitariamente;
Sem fazer conta do se-ir do viver.
Ninguém mais soube dele.
Sou o que não foi, o que vai ficar calado.


                                                            Poliana Da Silva e Sousa 






segunda-feira, 21 de março de 2016

Desentranhamento Poético João Guimarães Rosa

                               RIO ADENTRO

Calado que sempre

Sem alegria nem cuidado

Acontecia

Acender fogueiras na beirada do rio

No alumiado delas, se rezava e se chamava

Não valem de nada

Chapéu velho na cabeça 

O aspecto de bicho

No não-encontrável

Com as bagagens da vida

Pondo perpétuo

Sou doido?

Sofri o grave frio dos medos, adoeci

Nessa água, que não pára 

                                                Audrey Kajiwara

                Rio Madeira Mamoré, marca divisa entre Brasil e Bolívia



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