É
o resumo do meu poema e da fase que estou vivendo. Eu não sou ruim,
mas muitos me veem assim e, por querer ajudar, muitos me veem como
intrometida. Eu não fico com raiva da pessoa, eu não estou buscando
o perdão das pessoas, mas delas mesmas pela imagem que criam de mim.
Eu me culpo demais e escuto coisas que não deveria escutar. E eu
tenho dentro de mim a bondade e acabo trazendo tudo pra mim. Esse
trecho mexeu comigo porque hoje todas as pessoas pregam o amor, mas
no fundo sentem ódio. O que é o ódio? Meu filho me perguntou e eu
não soube responder por que também tenho ódio. Estou fugindo de
dar uma resposta, mas ele quer saber o que eu penso. Quando li essa
frase pensei que às vezes precisamos fazer escolhas e muitas das
vezes isso define se seremos felizes ou tristes. Tudo passa pelo
olhar. O que tinha entendido do que a Nathália escreveu era outra
coisa e quando coloquei os óculos é entendi o que era. Depende de
que óculos se usa na vida para se ter uma visão de algo. Às vezes
a gente precisa tomar uma decisão e não toma. Eu também sou ruim,
mas todos somos bons e ruins, estamos no meio. Não sei se sou feia
ou bonita, sou os dois.
Eu tenho medo de fazer algo a alguém e a pessoa achar ruim de eu ajudá-la. Talvez ela não aceite por medo, por achar que é autosuficiente, mas até um cachorro late mostrando para o dono que tem alguém desconhecido no quintal. Me chamou atenção a parte em que o Riobaldo estuprou uma mulher e ele disse que nunca mais ia fazer aquilo. E Diadorin disse que mulher era bicho infeliz e por isso não queria ser mulher. Isso me chamou atenção porque sofri abuso e é uma coisa que sempre me toca muito, uma ferida que a gente aprende a lidar, mas não cura nunca. Sempre vem nas minhas relações e na convivência com os outros. E tem que conviver o resto da vida. Um machucadão, uma desordem que mexe profundamente com o ser. O Riobaldo é esse ser que não tem fronteira entre o bem e o mal, sempre transita entre os dois mundos. E isso me faz lembrar que todo abusador foi abusado, ele se via compelido a fazer o mesmo que seus companheiros. Teve uma visa miserável, a relação de machismo e ausência paterna e teve que ter a experiência de abusador para decidir não fazer mais. Quem foi abusado tem que trabalhar a entrega porque na hora do abuso a pessoa se fecha.
Ele queria que aquelas mulheres gostassem dele pelo seu ser e não pela força, o que me faz mais uma vez olhar para minha ferida, integrar e reconhecer, por mais difícil que seja, sei que o abusador também está nessa linha tênue entre o bem e o mal, como eu. Preciso perdoar, porque ele também foi abusado e se se eu não perdoá-lo, não me livro dele nunca. Essa parte está muito ligada a um momento que eu venho superando. Houve um momento em que eu precisava de limites e outro em que eu tinha muito limite. Eu percebi e entendo isso de estar contido, é por isso que mesmo quando tudo está ruim ainda se tem a esperança de ficar bom. Quando foi proposta a ideia de ler o livro fiquei receosa de como seria isso. Eu tenho observado, ao decorrer das aulas, e vejo que está sendo humanizador, o conteúdo do livro e também as experiências compartilhadas, porque nós estamos no sertão e nas veredas também. É uma via de mão dupla. Esse trecho me marcou muito porque fala da nossa experiência humana, o bom, o belo, e mexe muito com a nossa essência. Um livro antigo que se lermos com atenção, se tivermos o sentimento de reflexão, ele vai trazer algo para nós e para as gerações futuras. E ser humano, como acontecia antigamente, na época de Diadorim que mesmo com tantas questões, ele também era humano. Quando a amizade de Diadorim e Riobaldo estremeceu um pouco, me fez parar para pensar nas minhas amizades atualmente. Quem são os meus amigos? Amigos são aqueles com quem se pode se abrir e expor sem que a sociedade imponha, mas pela essência da verdadeira amizade, porque não se pode viver sem amigos e isso é importante, é o que basta.
Resumiu tudo o que eu sinto, o medo de errar me impede de viver verdadeiramente, conhecer novas coisas e fazer coisas que gosto. O medo destrói por dentro, limita por dentro, limita a gente. Preciso destruir essa barreira e isso é difícil. Existem episódios na nossa vida que não valorizamos, como o próprio ato de comer, se vestir, um beijo ou um abraço, e ele aponta experiências corriqueiras, do cotidiano que nos mostram que é preciso ter gratidão, dar valor. Quando se perde é que se dá valor, coisas corriqueiras e expressões também precisam ser valorizados. Eu me identifico com a experiência do Riobaldo, que fizeram com que ele ficasse fechado. Ele fica se julgando sobre o sentimento por Diadorim, por ser jagunço. Mas ele tem vontade de viver. Muitas coisas que eu passei não me permitem uma entrega verdadeira, mas agora quero me permitir e vivenciar. Me deu uma gastura quando Guimarães consegue mostrar uma linha muito tênue entre o animal e o homem, porque eles tem características animalescas naquele grupo. A cena de raspar os dentes com a faca e a volta do homem à sua animalidade. Eu adorei esse trecho pela força da catarse da literatura por me permitir vê-los certinho, lixando os dentes e o Riobaldo dizer não. Riobaldo não está inconsciente fazendo as coisas, ele aparece como a consciência humana: ser atroz é também ser humano. Gostei da sensação...
O Riobaldo fala da dificuldade de ser verdadeiro quando algo já passou. Ele traz duas questões aí, um intertexto com Proust, onde ele relata que vai ter ciúme e amor 20 anos depois, revisitando afetos que não foram vividos naquele momento. William Blake fala que imaginação e vida é a mesma coisa porque o imaginado vem da experiência. O que vou lembrar pode vir carregado de vida porque é meu, foi vivido. Sobre contar o acontecido: às vezes as coisas demoram em gente entender. Uma reflexão sobre a memória humana. Proust descobriu que o olfato é o sentido que está mais ligado à memória, às lembranças. A literatura, assim como as artes, nos falam coisas sobre nós que ainda não foram racionalizadas por nós, nem explicadas, inclusive cientificamente. Riobaldo reclama dessa dificuldade de narrar, ele se questiona sobre o porquê dele pular uma parte do que estava contando, questionando o porquê não contamos tudo. Quando a gente se lembra só do que é ruim, fica igual ao cavalo que não via coisas boas; o ser humano quando lembra da vida fica mais ligado nas coisas ruins do que nas boas. Quando viveu a coisa não sentiu, mas quando recordou ele sentiu, é a síntese do pensamento do Proust, a memória é a reconstituição de uma segunda vida nossa, a possibilidade de se reconhecer numa coisa que não viveu, refazendo sua vida num outro sentido. Grande Sertão é um intertexto profundo com “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust.
Eu tenho medo de fazer algo a alguém e a pessoa achar ruim de eu ajudá-la. Talvez ela não aceite por medo, por achar que é autosuficiente, mas até um cachorro late mostrando para o dono que tem alguém desconhecido no quintal. Me chamou atenção a parte em que o Riobaldo estuprou uma mulher e ele disse que nunca mais ia fazer aquilo. E Diadorin disse que mulher era bicho infeliz e por isso não queria ser mulher. Isso me chamou atenção porque sofri abuso e é uma coisa que sempre me toca muito, uma ferida que a gente aprende a lidar, mas não cura nunca. Sempre vem nas minhas relações e na convivência com os outros. E tem que conviver o resto da vida. Um machucadão, uma desordem que mexe profundamente com o ser. O Riobaldo é esse ser que não tem fronteira entre o bem e o mal, sempre transita entre os dois mundos. E isso me faz lembrar que todo abusador foi abusado, ele se via compelido a fazer o mesmo que seus companheiros. Teve uma visa miserável, a relação de machismo e ausência paterna e teve que ter a experiência de abusador para decidir não fazer mais. Quem foi abusado tem que trabalhar a entrega porque na hora do abuso a pessoa se fecha.
Ele queria que aquelas mulheres gostassem dele pelo seu ser e não pela força, o que me faz mais uma vez olhar para minha ferida, integrar e reconhecer, por mais difícil que seja, sei que o abusador também está nessa linha tênue entre o bem e o mal, como eu. Preciso perdoar, porque ele também foi abusado e se se eu não perdoá-lo, não me livro dele nunca. Essa parte está muito ligada a um momento que eu venho superando. Houve um momento em que eu precisava de limites e outro em que eu tinha muito limite. Eu percebi e entendo isso de estar contido, é por isso que mesmo quando tudo está ruim ainda se tem a esperança de ficar bom. Quando foi proposta a ideia de ler o livro fiquei receosa de como seria isso. Eu tenho observado, ao decorrer das aulas, e vejo que está sendo humanizador, o conteúdo do livro e também as experiências compartilhadas, porque nós estamos no sertão e nas veredas também. É uma via de mão dupla. Esse trecho me marcou muito porque fala da nossa experiência humana, o bom, o belo, e mexe muito com a nossa essência. Um livro antigo que se lermos com atenção, se tivermos o sentimento de reflexão, ele vai trazer algo para nós e para as gerações futuras. E ser humano, como acontecia antigamente, na época de Diadorim que mesmo com tantas questões, ele também era humano. Quando a amizade de Diadorim e Riobaldo estremeceu um pouco, me fez parar para pensar nas minhas amizades atualmente. Quem são os meus amigos? Amigos são aqueles com quem se pode se abrir e expor sem que a sociedade imponha, mas pela essência da verdadeira amizade, porque não se pode viver sem amigos e isso é importante, é o que basta.
Resumiu tudo o que eu sinto, o medo de errar me impede de viver verdadeiramente, conhecer novas coisas e fazer coisas que gosto. O medo destrói por dentro, limita por dentro, limita a gente. Preciso destruir essa barreira e isso é difícil. Existem episódios na nossa vida que não valorizamos, como o próprio ato de comer, se vestir, um beijo ou um abraço, e ele aponta experiências corriqueiras, do cotidiano que nos mostram que é preciso ter gratidão, dar valor. Quando se perde é que se dá valor, coisas corriqueiras e expressões também precisam ser valorizados. Eu me identifico com a experiência do Riobaldo, que fizeram com que ele ficasse fechado. Ele fica se julgando sobre o sentimento por Diadorim, por ser jagunço. Mas ele tem vontade de viver. Muitas coisas que eu passei não me permitem uma entrega verdadeira, mas agora quero me permitir e vivenciar. Me deu uma gastura quando Guimarães consegue mostrar uma linha muito tênue entre o animal e o homem, porque eles tem características animalescas naquele grupo. A cena de raspar os dentes com a faca e a volta do homem à sua animalidade. Eu adorei esse trecho pela força da catarse da literatura por me permitir vê-los certinho, lixando os dentes e o Riobaldo dizer não. Riobaldo não está inconsciente fazendo as coisas, ele aparece como a consciência humana: ser atroz é também ser humano. Gostei da sensação...
O Riobaldo fala da dificuldade de ser verdadeiro quando algo já passou. Ele traz duas questões aí, um intertexto com Proust, onde ele relata que vai ter ciúme e amor 20 anos depois, revisitando afetos que não foram vividos naquele momento. William Blake fala que imaginação e vida é a mesma coisa porque o imaginado vem da experiência. O que vou lembrar pode vir carregado de vida porque é meu, foi vivido. Sobre contar o acontecido: às vezes as coisas demoram em gente entender. Uma reflexão sobre a memória humana. Proust descobriu que o olfato é o sentido que está mais ligado à memória, às lembranças. A literatura, assim como as artes, nos falam coisas sobre nós que ainda não foram racionalizadas por nós, nem explicadas, inclusive cientificamente. Riobaldo reclama dessa dificuldade de narrar, ele se questiona sobre o porquê dele pular uma parte do que estava contando, questionando o porquê não contamos tudo. Quando a gente se lembra só do que é ruim, fica igual ao cavalo que não via coisas boas; o ser humano quando lembra da vida fica mais ligado nas coisas ruins do que nas boas. Quando viveu a coisa não sentiu, mas quando recordou ele sentiu, é a síntese do pensamento do Proust, a memória é a reconstituição de uma segunda vida nossa, a possibilidade de se reconhecer numa coisa que não viveu, refazendo sua vida num outro sentido. Grande Sertão é um intertexto profundo com “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust.


